"Tendo entrado no novo século e no ensino fundamental, precisamente em 1901, o meu pai me contratou para trabalhar, como aprendiz de pedreiro, nos dias livres e nas férias de verão. Eu ganhava, me lembro, cinco vinténs por semana, igual a uma lira cada quatro semanas. O ofício me agradava, e ansiava por me tornar autônomo. Nisso eu via um lado ético e um heroico..."

photos Assim Igino Giordani (24.9.1894 - 18.4.1980) fala de si no início de uma aventura que viveu com intensidade de pensamento e ardor de ideais (será chamado "Foco").

Teve um seu personalíssimo timbre no combate por grandes metas humanas: liberdade, justiça social, paz (a serviço da "necessidade de amor entre os povos", escreveu em 1919). Por elas enfrentou precisos compromissos culturais e políticos na crise do velho Estado liberal, na atribulação sob o regime totalitário e, depois, na renascente democracia italiana.

Testemunhou com a vida e proclamou com a caneta realidades eclesiais com que precedia alguns conteúdos do Concílio Vaticano II.

Graças à intervenção de um benfeitor pudera continuar os estudos. Convocado para o exército em 1915, não disparou contra outras pessoas ("não inimigos eu aqui vi"), mas agiu contra uma fortificação adversária com empresa arriscada, que lhe valeu a medalha de prata e lhe causou uma invalidez permanente.

Formado em letras, exerceu diversas atividades profissionais: fora do ensino devido às restrições políticas, foi aos EUA para estudos como bibliotecário e, como tal se empregou na Biblioteca Vaticana.

Para sustentar a família - teve quatro filhos -, mas também por força de uma incomprimível vocação à caneta, foi escritor e jornalista fecundíssimo: milhares de artigos, algumas centenas de opúsculos e ensaios, mais de cem livros. Escreveu sobre patrística, apologética, ascética, hagiografia, eclesiologia, política e também narrativa.

A notoriedade alcançada por ele na Itália e no exterior nos é indicada pelo sucesso de alguns de seus livros, que tiveram várias edições e foram traduzidos na Bélgica, França, Estados Unidos, Argentina, Brasil, Espanha, Tchecoslováquia, Sérvia, Portugal, Índia, Japão e China. Até hoje seus livros são traduzidos, alguns inclusive em árabe. Conhecia diversas línguas e publicou também versões do grego e do latim e de algumas línguas modernas.

Foi articulista em jornais e revistas italianas e estrangeiras - como o "Commonweal" de New York e o "Novidades" de Lisboa. Ocupou a direção de quotidianos ("Il Quotidiano" 1944-1946, "Il Popolo" 1946-1947) e de periódicos ("Il Popolo Nuovo" 1924, "Parte Guelfa" 1925, "Fides" 1930-1962, "La Via" 1949-1953, "Il Campo" 1946, "Città Nuova" 1959-1980).

É um dos casos exemplares de cultura não acadêmica, mas de ampla incidência: Hoje é proposto à atenção dos professores por jovens que em universidades italianas e do exterior elaboram teses de graduação sobre um ou outro aspecto do seu multiforme testemunho de vida e de pensamento.

Como político viveu uma primeira experiência nos anos 1920 com pe. Sturzo, do qual conquistou a estima, recebendo encargos no setor da imprensa; retomou depois com De Gasperi e de 1946 a 1953 esteve, antes, entre os constituintes e, depois, "deputado de paz" (assim amou se definir).

Em setembro de 1948 encontrou Chiara Lubich. Impressionado pela forte espiritualidade do Movimento dos Focolares, aderiu imediatamente a ele, colaborando para pôr em luz alguns de seus aspectos sejam interiores sejam de socialidade, ao ponto de ser considerado um cofundador.

"Em mim, entrara o fogo", confessará. O seu agir político subia de tom: de polemista flagelador, como fora em 1924-25, se tornou defensor do diálogo, propunha acordos interpartidários pela paz e uma política em que inclusive o adversário seja amado. Junto com um social-democrático, apresentou a primeira proposta de lei para a objeção de consciência.

Como cristão pôde declarar: "antes tinha procurado, agora encontrei". Dizia isso especialmente em mérito ao total ser Igreja do fiel leigo; e como focolarino abriu caminhos concretos para uma eclesiologia de comunhão com a proposta da plena inserção dos casados no focolare, em unidade de vida com solteiros e sacerdotes.

Nos últimos anos se dedicou particularmente à atividade ecumênica como diretor do Centro "Uno".